Uma <em>OPA</em> sobre Fátima

Jorge Messias
Antecipando-se ao anúncio oficial que a conferência episcopal portuguesa divulgará em Abril, a imprensa (nomeadamente, o semanário Expresso) apressou-se a noticiar que Fátima irá passar de mãos. Como é hábito, a notícia foi dada com um certo sensacionalismo, para atrair a leitura.
Mas teve o mérito de tocar, ainda que ao de leve, em aspectos vitais das relações entre a religião católica e as componentes do mercado religioso. As declarações de D. José Policarpo, recolhidas pelo semanário, foram também esclarecedoras noutro sentido: contribuíram para desvalorizar objectivamente o mito do ecumenismo conciliar e do diálogo interdenominacional com as outras confissões não católicas.
Lê-se, no corpo da notícia, que o Vaticano tinha intervindo sobre o Santuário de Fátima, subtraindo-o ao governo do episcopado português. O bispo de Lisboa minimizou a importância da mudança de estatuto, deixando entender que a nova gestão de Fátima apenas virá consagrar a situação de facto que já se verifica. E, com efeito, de há anos que é voz corrente estar o santuário a funcionar sem o controlo da conferência episcopal ; serem os seus reitores designados directamente pelo Vaticano ; servir a sua aparente dependência da diocese de Leiria apenas para ocultar a sua ligação orgânica à prelatura pessoal do Opus Dei cujo Superior, como se sabe, é o Papa; e estar a miraculosa Capital da Fé rigorosamente organizado em holdings, como qualquer outro grande grupo económico do mercado financeiro.
Afirma-se também no Expresso - sem explicar o como e o porquê - que o jornal teve acesso às contas do santuário. Só em 2004, Fátima terá «gerado», na linguagem pitoresca do jornalista, lucros líquidos da ordem dos 19 milhões de euros (aproximadamente 4 milhões de contos, na moeda antiga).
É um excelente ramo de negócios, este das aparições. E da sua divulgação resulta (ainda que a verba deva ser revista em alta) que não se deve deixar morrer a memória daquela famosa afirmação de D. José Policarpo que, no passado Natal, declarou que a igreja católica, «na sua pobreza e simplicidade», transporta o estandarte da libertação do homem.

Toque a defuntos pelo Ecumenismo

Um dos instrumentos preferidos pelas forças da globalização capitalista é o clima de perplexidade gerado à volta dos grandes problemas pela densa névoa das contradições que se sucedem e cruzam entre si. No caso de Fátima, por exemplo, poderá perguntar-se: se tudo vai bem e é excelente a margem de lucro, por quê mudar?
É nessa altura que avança o espesso nevoeiro. Afinal, não é só por causa do dinheiro e do negócio que Fátima vai mudar estruturalmente. As razões são várias e muito complexas. Então, outros factores vão surgindo nas linhas e entrelinhas dos jornais. Há um novo papa, com um novo estilo. Um capitalismo com nova dinâmica. Por isso, as regras do jogo ecuménico precisam de mudar: Fátima será só para os católicos.
E o papa, pergunta-se- faz, ou não faz, vigilância teológica? Tem ou não tem delegado residente no santuário - um homem forte da sua confiança, com amplos poderes de gestão ? Terão os bispos portugueses espaço livre para negociar com a Santa Sé, nomeadamente para onde encaminhar os lucros de Fátima ? Ou, pelo contrário, estaremos na presença de uma autêntica OPA hostil do papa sobre os interesses de uma igreja particular?
Em regra, cenários confusos como este tendem a ocultar o essencial.
E, em Fátima o principal, pode admitir-se, não consiste na falência do ecumenismo, na definição da propriedade ou na demarcação de novas fronteiras entre a Santa Sé e a igreja portuguesa. Tudo isso está já desde há muito estabelecido.
O episcopado parece possuído por uma ideia obsessiva: a igreja tem de acompanhar o galope alucinante do capitalismo. Se ficar para trás, desmoronar-se-á. Importa enriquecer com os ricos, ganhar privatizações, diminuir os custos, utilizar as técnicas do marketing e cortar raízes com um passado de ruralidades e atavismos. Em Roma, o papa espreita.
Na sombra, longe dos olhares indiscretos, o governo socialista, a igreja institucional e os numerosos interesses que envolvem um Estado apenas democrático na fachada, preparam-se para lançar as bases de duas grandes reformas que, efectivamente, poderão pôr em risco a vida e a sobrevivência do país nas próximas décadas: a Reforma Administrativa do Território, por parte do Estado; a Reforma das Paróquias, pelo lado da Igreja. Em ambos os casos, os objectivos são idênticos: diminuição dos gastos com os serviços e com o pessoal, investimento na informatização, descentralização centralizada.
A cortina de silêncio terá de ser rasgada. Veremos, então, quais as reais dimensões políticas desta operação conjunta.


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